Alê Astolphi
Viagra Feminino? Saiba se a pílula rosa é mesmo capaz de aumentar a libido feminina

O médico e terapeuta sexual João Borzino explica como atua o Addyi, recém liberado pela FDA para tratar a baixa libido em mulheres na pós-menopausa.
Lançado em 1998, o Viagra causou uma revolução sexual ao tratar a disfunção erétil. O medicamento permitiu que milhões de homens voltassem a ter relações sexuais. Desde então, a indústria farmacêutica tenta criar um fármaco para aumentar a libido feminina. Em 2015, a flibanserina, comercializada sob o nome Addyi, foi liberada pela agência regulatória americana (FDA) para um público restrito. No fim do ano passado, recebeu aval do órgão para tratar a baixa libido em mulheres na pós-menopausa.
Mas será que o remédio é mesmo o Viagra feminino? De acordo com o terapeuta sexual e médico João Borzino, a Flibanserina é um medicamento originalmente desenvolvido para tratar depressão, mas que se revelou eficaz em alguns casos para mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) — uma condição caracterizada por baixa libido que causa angústia.
“Diferentemente do sildenafil (Viagra), que age diretamente no fluxo sanguíneo para facilitar uma resposta fisiológica física, a flibanserina atua no cérebro, modulando neurotransmissores como a serotonina, dopamina e norepinefrina, que estão envolvidos na regulação do desejo. O efeito esperado não é transformar a libido de uma mulher da noite para o dia, mas potencialmente criar um ambiente neuroquímico mais favorável ao desejo — quando outros fatores estiverem alinhados”, esclarece.
O médico afirma que a libido feminina não é simplesmente uma questão de “ligar um interruptor”. “Ela está entrelaçada com emoções, relacionamentos, história de vida, sentido de valor próprio e, essencialmente, significado. Reduzi-la a um sintoma isolado a ser tratado medicamente é perder de vista a complexidade da experiência humana”.
“Imagine uma mulher que não deseja — não porque há algo “quebrado” em seus circuitos neuroquímicos, mas porque ela vive sob uma carga desproporcional de stress, expectativas conflitantes, experiências passadas que feriram sua capacidade de abrir-se intimamente, ou ainda uma relação que carece de comunicação profunda. O sofrimento decorrente da baixa libido é real, mas ele reverbera em múltiplos níveis — psicológico, social e cultural — e não apenas numa sinapse isolada no cérebro”,acrescenta.
Moderna sociedade e sua busca por soluções instantâneas
Borzino pondera que vivemos numa cultura que aprendeu a cientificar e comercializar a esperança. “Queremos respostas rápidas, soluções embotadas em comprimidos, promessas de funcionamento imediato. Há um impulso cultural latente para “medicamentar” aquilo que é desconfortável, em vez de encarar o trabalho árduo de autoexploração e transformação relacional”.
Ele afirma que a flibanserina entra nesse cenário como se fosse uma resposta definitiva ao enigma feminino do desejo. “Mas a verdade profunda é que o desejo humano, em qualquer gênero, não é apenas um reflexo de níveis de neurotransmissores, é um fenômeno que nasce da interação entre significado, história, desejo relacional, valores pessoais e confiança”.

Paralelo com o Viagra: a armadilha da solução fácil
De acordo com o terapeuta sexual, quando o Viagra foi introduzido, muitos celebraram a promessa de restaurar a função erétil com um simples comprimido. “Contudo, falamos de um problema que é, muitas vezes, tanto psicológico quanto físico. A disfunção erétil frequentemente tem raízes em ansiedade de desempenho, medo do fracasso, estresse de vida ou problemas de intimidade — fatores que nenhum medicamento pode resolver completamente”.
“Da mesma forma, sugerir que uma pílula pode reinstalar o desejo feminino é, no mínimo, simplificar uma questão que tem profundidade fenomenológica. Desejo sexual, para ser genuíno, precisa ser nutrido — não apenas quimicamente facilitado”.
Uma crítica inteligente à medicalização do desejo humano
João Borzino pontua que a nossa sociedade tende a enlatar o desejo humano — transformando nuances subjetivas em diagnósticos clínicos e diagnósticos em produtos de prateleira. “A baixa libido feminina é transformada em um “problema a ser consertado”, quando, na verdade, muitas vezes é um sintoma de algo mais amplo: relações que necessitam de diálogo, indivíduos que necessitam de compreensão de si mesmos e culturas que idealizam uma sexualidade perfeita e sem atritos”.
Ele diz que medicar pode ter seu lugar, sem dúvida — especialmente quando há um quadro clínico claro e validado. Segundo o médico, o medicamento não pode ser visto como panaceia para questões que exigem introspecção, diálogo e um enfrentamento das vulnerabilidades mais profundas da condição humana.
“Propomos, portanto, que encaremos a baixa libido — feminina ou masculina — não como um defeito a ser erradicado por pílulas, mas como um convite à compreensão mais rica de nós mesmos e de nossas relações. Antes de correr para a farmácia, talvez devêssemos dirigir nossa atenção para o espelho interno, para o outro significativo ao nosso lado, e para as verdades difíceis que muitas vezes evitamos encarar. É aí, nesse terreno de honestidade e coragem, que reside a verdadeira cura — e não exclusivamente no frasco com rótulo sedutor”, conclui.
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