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Dr. Rodrigo Nascimento: por que o hospital do futuro precisará unir inteligência artificial, gestão e cuidado humanizado

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Médico ortopedista e gestor em saúde analisa como tecnologia, dados e novos modelos de gestão podem transformar a eficiência hospitalar e melhorar a experiência do paciente

A transformação digital deixou de ser uma tendência distante e passou a fazer parte da rotina dos sistemas de saúde. Inteligência artificial, análise de dados, prontuários eletrônicos, telemedicina, automação de processos e ferramentas de apoio à decisão clínica estão modificando a maneira como hospitais, médicos e pacientes se relacionam. Mas, diante de tantas inovações, surge uma questão central: a tecnologia está, de fato, tornando a saúde mais eficiente e melhor para quem está na ponta do atendimento?

Para o médico ortopedista e gestor em saúde Dr. Rodrigo Nascimento, a resposta depende menos da quantidade de tecnologia disponível e mais da capacidade das instituições de utilizá-la de forma estratégica.

Com mais de duas décadas de experiência no sistema de saúde brasileiro e atualmente cursando MBA em Healthcare Management nos Estados Unidos, Rodrigo acompanha a evolução dos modelos de gestão dos dois países e defende que o futuro da saúde será determinado pela capacidade de integrar tecnologia, eficiência operacional, conhecimento clínico e experiência do paciente.

Segundo o especialista, um dos principais desafios das instituições é trazer novas ferramentas:

“Tecnologia por si só não transforma um sistema de saúde. É preciso entender qual problema queremos solucionar, quais resultados pretendemos alcançar e como aquela tecnologia pode contribuir para isso”, afirma.

Nos últimos anos, hospitais passaram a produzir uma quantidade cada vez maior de informações. Dados de pacientes, indicadores assistenciais, custos, tempo de internação, taxas de ocupação, reinternações e desfechos clínicos podem oferecer aos gestores uma visão mais precisa sobre o funcionamento das instituições. O desafio, entretanto, está em transformar esses dados em decisões.

Para Rodrigo, essa mudança pode representar uma das principais oportunidades para a gestão hospitalar. Ao identificar gargalos e padrões de comportamento, gestores podem antecipar problemas, reorganizar fluxos, reduzir desperdícios e melhorar a utilização de recursos.

“Não basta ter milhares de dados armazenados. O valor está em conseguir transformar essas informações em inteligência para a tomada de decisão”, explica.

Essa lógica também pode contribuir para uma mudança importante na avaliação dos serviços de saúde: deixar de considerar apenas o volume de procedimentos realizados e passar a observar quais resultados foram efetivamente alcançados pelo paciente.

É nesse contexto que ganha força o conceito de Value-Based Healthcare, ou saúde baseada em valor. O modelo propõe uma mudança na lógica tradicional de avaliação dos serviços, colocando maior atenção na relação entre os recursos utilizados e os resultados obtidos pelo paciente.

Na prática, isso significa considerar indicadores como qualidade, segurança, desfechos clínicos, satisfação do paciente, tempo de recuperação e eficiência dos processos.

Para o Dr. Rodrigo Nascimento, essa mudança exige uma transformação cultural dentro das próprias instituições.

“Quando falamos em saúde baseada em valor, não estamos falando simplesmente em gastar menos. Estamos falando em utilizar melhor os recursos para entregar resultados melhores ao paciente”, afirma.

A discussão ganha ainda mais importância diante do aumento dos custos assistenciais, do envelhecimento populacional e da maior prevalência de doenças crônicas e condições que exigem acompanhamento contínuo.

Entre as tecnologias que mais despertam expectativas está a inteligência artificial. Na avaliação do especialista, a IA poderá assumir funções cada vez mais relevantes na organização das informações, identificação de padrões, automação de tarefas administrativas e apoio à tomada de decisão.

No entanto, Rodrigo ressalta que a tecnologia não deve ser confundida com a substituição da atuação médica.

“A inteligência artificial pode ampliar a capacidade do profissional, mas a decisão médica continua envolvendo contexto, experiência, comunicação e responsabilidade. O futuro não é médico versus tecnologia. É médico utilizando tecnologia para tomar decisões melhores”, destaca.

Esse cenário também deverá modificar a formação dos profissionais de saúde. Para o especialista, o médico que atuará nas próximas décadas precisará desenvolver competências que ultrapassam o conhecimento técnico de sua especialidade. Gestão, liderança, análise de indicadores, tecnologia, inovação, comunicação e compreensão dos custos assistenciais tendem a ganhar espaço na formação de uma nova geração de profissionais.

A experiência de Rodrigo na área clínica e administrativa o levou a defender uma aproximação maior entre medicina e gestão. Durante muito tempo, as duas áreas foram tratadas como universos distintos. De um lado, profissionais responsáveis pelo atendimento e pelas decisões clínicas. Do outro, gestores encarregados de orçamento, processos e indicadores.

Para o médico, essa separação tende a perder força.

“O profissional que está na linha de frente conhece problemas que muitas vezes não aparecem nos relatórios administrativos. Quando o conhecimento clínico se encontra com a gestão, conseguimos enxergar o sistema de maneira muito mais completa”, afirma.

Essa integração pode ser especialmente relevante em hospitais, onde pequenas ineficiências acumuladas ao longo de centenas ou milhares de atendimentos podem representar grandes impactos financeiros e assistenciais.

A experiência internacional também faz parte da trajetória atual do Dr. Rodrigo Nascimento. Ao aprofundar seus estudos em Healthcare Management nos Estados Unidos, o especialista passou a observar de maneira ainda mais próxima as diferenças e semelhanças entre os dois sistemas de saúde.

Apesar das particularidades de cada país, existem desafios comuns, como controlar custos, melhorar a qualidade, reduzir desperdícios, aumentar a eficiência e oferecer uma experiência mais satisfatória aos pacientes.

Na avaliação do médico, o Brasil possui uma experiência relevante em desenvolver soluções diante de limitações de recursos, enquanto os Estados Unidos apresentam forte capacidade de investimento em tecnologia, inovação e modelos avançados de gestão. O intercâmbio entre essas experiências pode contribuir para o desenvolvimento de soluções mais eficientes e sustentáveis.

Para Rodrigo, no entanto, nenhuma transformação será realmente relevante se não produzir impacto positivo para quem está no centro do sistema: o paciente.

A tecnologia pode reduzir etapas burocráticas, os dados podem melhorar decisões e a gestão pode controlar desperdícios. Mas o resultado final precisa aparecer na assistência. Isso significa reduzir o tempo de espera, melhorar a comunicação, evitar procedimentos desnecessários, aumentar a segurança, facilitar o acesso às informações e proporcionar um cuidado mais coordenado.

“O paciente não quer saber apenas qual tecnologia o hospital possui. Ele quer ser bem atendido, ter segurança, entender o que está acontecendo e perceber que o sistema está funcionando para ele”, destaca.

Diante desse cenário, o especialista acredita que a próxima década deverá ser marcada por uma mudança importante na forma como hospitais e profissionais avaliam seu próprio desempenho. Mais do que perguntar quantos procedimentos foram realizados, será necessário perguntar quais resultados foram entregues.

É justamente nessa transição entre volume e valor, tecnologia e humanização, dados e decisões que o Dr. Rodrigo Nascimento identifica uma das maiores oportunidades para transformar a saúde e construir sistemas mais eficientes, sustentáveis e centrados nas necessidades dos pacientes.

(Crédito: Arquivo Pessoal)

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