Saude e Beleza
Novas regras da NR-1 ampliam espaço para ações de prevenção em saúde mental nas empresas

Especialista destaca que estratégias de autorregulação, pausas conscientes e educação para o estresse podem fortalecer a prevenção dos riscos psicossociais e contribuir para ambientes de trabalho mais saudáveis, produtivos e sustentáveis
As mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) reforçam a importância de uma abordagem mais ampla sobre saúde e segurança no trabalho e colocam os riscos psicossociais em maior evidência na gestão das organizações. O tema ganha relevância diante de uma realidade marcada por jornadas intensas, excesso de demandas, pressão por resultados, dificuldade de desconexão, mudanças constantes e relações de trabalho cada vez mais complexas.
Entre os fatores que podem contribuir para o surgimento ou agravamento de riscos psicossociais estão a sobrecarga de trabalho, falta de clareza sobre responsabilidades, baixa autonomia, pressão excessiva por produtividade, conflitos interpessoais, assédio, dificuldades de comunicação e condições inadequadas de organização do trabalho.
Para a fisioterapeuta integrativa, palestrante internacional e pesquisadora do movimento humano Dra. Selma Cosso, a atualização da NR-1 representa não apenas uma adequação às novas exigências de gestão de riscos, mas também uma oportunidade para as empresas ampliarem suas estratégias de prevenção e incorporarem o cuidado com a saúde mental à rotina corporativa.
“Mais do que atender à legislação, as empresas têm a oportunidade de investir em ambientes mais saudáveis e sustentáveis. Quando falamos em prevenção, precisamos olhar não apenas para o momento em que o trabalhador já apresenta sinais de adoecimento, mas também para os recursos que podem ajudá-lo a reconhecer a sobrecarga, regular o estresse e recuperar o equilíbrio ao longo da jornada.”
Na avaliação da especialista, esse movimento exige uma mudança de cultura. A saúde mental no trabalho não deve ser tratada exclusivamente como uma responsabilidade individual do colaborador, nem ficar restrita a ações pontuais realizadas quando um problema já está instalado. É necessário observar também como o trabalho é organizado, como as equipes se relacionam, como as lideranças conduzem as demandas e quais condições são oferecidas para que as pessoas possam desempenhar suas funções de maneira saudável.
“Não podemos colocar sobre o trabalhador toda a responsabilidade por administrar o estresse de um ambiente que, eventualmente, produz excesso de pressão. A autorregulação é uma ferramenta importante, mas precisa fazer parte de uma estratégia maior, que envolva liderança, organização do trabalho, comunicação e prevenção”, explica Dra. Selma.
Nesse contexto, práticas simples podem complementar as ações corporativas de prevenção. Pausas conscientes, exercícios respiratórios, percepção corporal, mobilidade, técnicas de atenção e estratégias de autorregulação podem ser incorporadas à rotina de equipes como recursos para ajudar os profissionais a perceber sinais de tensão e recuperar a capacidade de concentração e presença.
Segundo a especialista, o objetivo não é interromper a produtividade, mas criar momentos estratégicos de recuperação que possam favorecer o desempenho.
“Uma pausa bem utilizada não significa perda de produtividade. Muitas vezes, alguns minutos de recuperação podem ajudar o profissional a retornar à atividade com mais atenção, clareza e capacidade de tomada de decisão. O organismo também precisa de momentos de recuperação para sustentar uma jornada de trabalho exigente.”
A fisiologia do estresse ajuda a explicar esse processo. Diante de situações de pressão, o organismo entra em estado de alerta para responder às demandas. Esse mecanismo é natural e necessário. O problema pode surgir quando a ativação se torna frequente ou prolongada e não existem oportunidades adequadas de recuperação.
A exposição contínua a situações de estresse pode afetar sono, concentração, disposição, percepção de bem-estar e capacidade de lidar com situações desafiadoras. Por isso, estratégias de prevenção precisam considerar tanto os fatores relacionados à organização do trabalho quanto os recursos individuais e coletivos disponíveis para lidar com as demandas.
Para Dra. Selma, ensinar as pessoas a reconhecerem os sinais do próprio corpo é uma forma de ampliar a autonomia e a consciência sobre a saúde.
“Antes de chegar ao esgotamento, o organismo costuma apresentar sinais. Alterações na respiração, tensão muscular, dificuldade de concentração, irritabilidade e sensação constante de urgência podem indicar que o sistema está trabalhando em um nível elevado de ativação. Aprender a perceber esses sinais permite agir mais cedo.”
Outro ponto importante é o papel das lideranças. Gestores e líderes estão diretamente envolvidos na distribuição de demandas, definição de prioridades, comunicação com as equipes e construção do ambiente de trabalho. Por isso, também precisam estar preparados para identificar situações que possam representar riscos psicossociais e conduzir as equipes de maneira mais consciente.
“A liderança tem um papel fundamental na prevenção. Não adianta falar em saúde mental se a cultura da organização valoriza apenas a entrega a qualquer custo. Precisamos formar líderes capazes de estabelecer prioridades, comunicar expectativas, perceber sinais de sobrecarga e criar ambientes em que as pessoas possam falar sobre dificuldades antes que elas se transformem em problemas maiores.”
Com mais de 25 anos de experiência, Dra. Selma Cosso desenvolveu uma metodologia que integra conhecimentos científicos sobre movimento humano, fisiologia do estresse e desenvolvimento humano. A proposta transforma esses conhecimentos em ferramentas práticas aplicáveis ao ambiente corporativo, por meio de palestras, treinamentos e programas voltados ao fortalecimento da saúde mental, da autorregulação, da liderança e da performance sustentável.
A especialista ressalta que a prevenção dos riscos psicossociais não deve ser encarada como uma ação isolada ou como um programa de bem-estar desconectado da realidade da empresa. Para produzir resultados consistentes, as iniciativas precisam dialogar com a cultura organizacional e com as condições concretas de trabalho.
“É importante que a empresa olhe para o contexto. Uma palestra pode despertar consciência, um treinamento pode desenvolver competências, mas a transformação acontece quando esses conhecimentos passam a fazer parte da cultura e das práticas do dia a dia.”
A atualização da NR-1 também amplia a oportunidade de aproximar áreas que tradicionalmente atuam de maneira separada, como recursos humanos, saúde e segurança do trabalho, liderança e gestão. Uma abordagem integrada pode ajudar as organizações a identificar riscos com maior precisão e desenvolver medidas preventivas mais adequadas à realidade de cada equipe.
Nesse cenário, a discussão sobre saúde mental ganha uma dimensão estratégica. Além de atender às responsabilidades relacionadas à saúde e segurança ocupacional, organizações que investem em prevenção podem contribuir para relações de trabalho mais equilibradas, maior qualidade de vida e melhores condições para o desenvolvimento das pessoas.
Para Dra. Selma, o grande desafio é transformar a preocupação com saúde mental em ações concretas e contínuas.
“A verdadeira prevenção acontece antes do adoecimento. Cuidar das pessoas não significa apenas oferecer soluções quando elas já estão no limite. Significa criar condições para que tenham mais consciência, recursos e suporte para atravessar os desafios do trabalho. Quando uma empresa cuida desse processo, ela também fortalece sua capacidade de inovar, produzir e crescer de maneira mais saudável e sustentável.”
Mais do que uma mudança regulatória, a nova realidade da NR-1 pode representar uma oportunidade para as organizações repensarem a relação entre produtividade, saúde e desenvolvimento humano. Em um mercado de trabalho cada vez mais exigente, a capacidade de prevenir o adoecimento e criar ambientes psicologicamente mais seguros tende a ocupar um espaço cada vez maior nas estratégias de gestão de pessoas.
(Crédito: Imagem criada por IA)
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