Marcos Michalak
Junho à mesa: quando a fogueira encontra a porcelana

Por que os ingredientes da festa mais brasileira merecem o mesmo cuidado de uma ceia
estrelada — e como construir um menu de junho que impressiona da louça à última taça.
Existe um equívoco gentil que atravessa décadas na cozinha brasileira: o de que comida junina
é, por natureza, comida de quintal. Que milho, amendoim, pinhão, gengibre, cravo, canela e
rapadura nasceram para o tabuleiro coberto de papel crepom e ali devem permanecer, fiéis ao
seu destino de quermesse. Respeito profundamente essa tradição — ela é, aliás, a alma do
que somos. Mas como cozinheiro, e sobretudo como alguém que acredita que a gastronomia é
também um exercício de releitura, proponho um outro olhar para o mês mais aromático do
calendário: o de que junho, com seu frio tímido e sua paleta de sabores tostados, é a melhor
estação para a alta cozinha brasileira mostrar a que veio.
Há razões objetivas para isso. Junho nos entrega ingredientes que dialogam, sem nenhum
esforço, com técnicas francesas, nórdicas e japonesas contemporâneas. O milho fermentado
virou obsessão de chefs escandinavos depois do Noma; nós o temos desde sempre, na
canjica, na pamonha, no curau. O pinhão, que cai das araucárias do Sul nessa época, tem
textura e densidade que rivalizam com qualquer castanha europeia. A mandioca — em todas
as suas formas, da farinha ao polvilho, do aipim ao tucupi — é coringa em mãos experientes.
Quando você olha a despensa de junho com olhos de chef, e não de festeiro, percebe que está
diante de um repertório invejável.
Faço, há alguns anos, menus contemporâneos sob medida para clientes em casa. E em junho
me dou o luxo de ser mais autoral do que nunca. O menu que descrevo a seguir é um
esqueleto — uma proposta — que costumo adaptar conforme a ocasião, o número de
convidados e, sobretudo, o que o mercado me oferece naquela semana. Mas ele serve como
manifesto: o de que se pode atravessar uma noite inteira de junho sem repetir um único clichê,
e ainda assim homenagear cada sabor da estação.
A abertura. Começo sempre com um caldo. Em junho, é quase imperdoável não fazer uma
soupe à l’oignon gratinée — a clássica francesa, com cebolas longamente caramelizadas,
queijo gruyère derretido no maçarico, crosta de pão tostado. É o prato perfeito para o friozinho
que se instala depois do pôr do sol. Faço, porém, uma pequena traição autoral: substituo o
vinho branco da redução por cachaça de umbu envelhecida. O resultado é uma cebola mais
profunda, com notas que beiram a baunilha, e que ancora a sopa em território brasileiro sem
nunca abandonar a referência parisiense.
O intermezzo. Antes do prato principal, sirvo o que os franceses chamam de trou normand —
uma pausa para limpar o paladar. A minha é uma granita de umbu com cachaça e abacaxi
grelhado, em colher de degustação. Refresca, prepara, e diverte. É também o momento em
que o convidado entende, definitivamente, que aquela não será uma noite previsível.
O peixe. Bacalhau confitado em azeite de urucum, sobre purê de aipim trufado, com espuma
de leite de coco e óleo de coentro. Aqui mora um dos meus orgulhos: o aipim trufado é um
daqueles momentos em que dois ingredientes que jamais se cruzariam num cardápio
convencional descobrem que nasceram um para o outro. A trufa branca, com sua terrosidade
aristocrática, eleva a humildade da mandioca a um patamar que beira o devocional.
A carne. Cordeiro confit, cozido lentamente em sua própria gordura por oito horas, servido com
redução de quentão — sim, o mesmo quentão da festa, reduzido até virar um xarope espesso,
perfumado de gengibre, cravo e canela —, farofa crocante de amendoim e milho, e uma
espuma salgada de canjica. É o prato em que a coluna inteira se justifica. Você come e
entende que a fogueira e a porcelana podem, sim, conviver na mesma mesa.
A sobremesa. Releitura de canjica: cremoso de milho verde no fundo da taça, sorvete de
paçoca artesanal por cima, telha crocante de pé de moleque fincada como uma escultura, e
uma calda de rapadura reduzida com cravo gotejada na hora, à mesa. Termino com um petit
four de trufa de paçoca e brigadeiro de milho verde, servidos numa pequena travessa de
cerâmica artesanal.
A harmonização é o que transforma um bom menu em uma experiência memorável. Para a
sopa, um champagne brut natureza — a acidez corta a untuosidade do queijo. Para o
bacalhau, um Chardonnay com passagem por madeira, encorpado o suficiente para sustentar o
urucum e a trufa. Para o cordeiro, um tinto do Rhône ou um Malbec de altitude argentino, com
taninos firmes que aguentam o doce do quentão reduzido. E na sobremesa, ouso o
atrevimento: uma cachaça envelhecida premium servida em pequenas doses, gelada. O Brasil
tem hoje destilados que dispensam apresentação e que harmonizam com sobremesa de
canjica como nenhum vinho de colheita tardia faria.
Sobre as louças, um aviso necessário: a apresentação é o primeiro impacto, e em menus
desse porte ela não é detalhe — é linguagem.
Trabalho com um conceito de contraste
deliberado entre o rústico autoral e a porcelana mínima. Cerâmica artesanal brasileira,
daquelas peças únicas feitas por ceramistas como Heloisa Galvão ou os ateliês de Cunha, para
os pratos quentes — o barro queimado conversa com a farofa, com a redução, com o cordeiro
confit. Porcelana branca lisa, quase clínica, para a sobremesa, onde a cor do milho e da
paçoca precisa ser a única protagonista. Vidros soprados para os intermezzos. Linho cru na
mesa, palha trançada como sousplat em um dos tempos. O luxo, quando bem feito, não grita.
Ele sussurra, com textura.
Termino com uma provocação. A festa junina é, para grande parte do Brasil, o equivalente
afetivo do Natal europeu. É a celebração mais sensorial do nosso calendário — fogueira, milho
assado, quentão, sanfona, cheiro de canela na rua. Por que aceitamos, então, que ela
permaneça gastronomicamente confinada à barraquinha? Os ingredientes estão lá, prontos. As
técnicas existem. Os chefs brasileiros estão entre os melhores do mundo. Falta apenas
decidirmos que esse mês merece o mesmo cuidado que dedicamos a uma ceia de fim de ano
ou a um jantar de aniversário importante.
Junho, afinal, é o mês em que o Brasil cheira a infância. E nada impede que a infância seja
servida em porcelana.
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo dos famosos e do entretenimento siga o OnePop no Instagram.
** A opinião expressa neste texto não é necessariamente a mesma deste site de notícias e sim de responsabilidade do autor do conteudo.
** A reprodução deste conteúdo é estritamente proibida sem autorização prévia.

Business2 semanas atrásMulheres aprenderam a empreender. Agora, o desafio é construir valor
Entretenimento1 semana atrásPadre Ezequiel reúne quase 10 mil pessoas em Paulistana (PI) para gravação do DVD que celebra décadas de missão religiosa
Business2 semanas atrásNem toda briga entre síndico e morador é responsabilidade do condomínio
Business2 semanas atrásConheça Igor Carvalho, o professor que se tornou CEO da GR6
Entretenimento1 semana atrásRush investe em podcast e inteligência artificial
Business2 semanas atrásClair Da Silveira Savino impulsiona o mercado de água mineral alcalina com a marca Saltos no Paraguai
Geral2 semanas atrásAlexandre Frota articula diálogo entre moradores e Prefeitura de Cotia em meio a conflito habitacional
Entretenimento2 semanas atrásCuritiba Faz História supera desafios




























