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Resorts avançam sobre mercado corporativo para ampliar ocupação durante a semana

Viagens de negócios começaram 2026 em ritmo recorde, avanço do bleisure e busca das empresas por experiências fora dos grandes centros aproximam dois mercados que antes pareciam opostos: lazer e corporativo
Durante décadas, os resorts foram associados principalmente a férias, feriados prolongados e fins de semana em família. Mas uma mudança no comportamento das empresas e dos próprios viajantes começa a alterar essa lógica. Em busca de maior equilíbrio na ocupação ao longo da semana, empreendimentos tradicionalmente voltados ao lazer vêm ampliando a atenção ao mercado corporativo, aos eventos e às viagens de incentivo.
Os números ajudam a explicar esse movimento. O mercado brasileiro de viagens corporativas movimentou R$ 147,8 bilhões em 2025 e entrou em 2026 mantendo a trajetória de crescimento. Somente em janeiro, foram R$ 12 bilhões, alta de 5,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior e novo recorde para o período. No primeiro trimestre deste ano, a movimentação ficou próxima de R$ 48 bilhões, com crescimento de 6,7% na comparação anual.
A expansão acontece ao mesmo tempo em que o conceito de viagem corporativa se torna mais amplo. Reuniões, convenções, treinamentos e congressos continuam relevantes, mas passam a dividir espaço com encontros de liderança, viagens de incentivo, imersões, confraternizações, lançamentos e experiências voltadas à integração das equipes.
Para a hotelaria, especialmente para os resorts, o movimento abre uma oportunidade estratégica: ocupar períodos tradicionalmente menos disputados pelo público de lazer e, ao mesmo tempo, oferecer às empresas algo que centros de convenções convencionais nem sempre conseguem entregar.
“O grande desafio de um resort não é ter demanda em um sábado de férias ou em um feriado. É construir uma operação saudável de segunda a segunda. O corporativo ajuda a equilibrar essa ocupação e, ao mesmo tempo, está buscando exatamente aquilo que os resorts aprenderam a oferecer muito bem: estrutura, experiência e convivência”, afirma Lúcio Barbosa, diretor do Grupo Santíssimo Resort.
Corporativo deixa a sala de reunião
A transformação não está apenas no volume financeiro do setor. Está também naquilo que as empresas esperam de um evento.
Dados do Incentive Travel Index mostram que 70% dos organizadores de viagens de incentivo buscam destinos inéditos para seus programas. O levantamento aponta ainda que 58% dos executivos esperam que as viagens de incentivo tenham papel ainda mais relevante no fortalecimento da cultura organizacional.
Isso ajuda a explicar por que os resorts passaram a ganhar espaço nas estratégias de MICE, sigla utilizada pelo setor para Meetings, Incentives, Conferences and Exhibitions, ou reuniões, incentivos, conferências e exposições.
Em vez de simplesmente reunir dezenas ou centenas de funcionários em uma sala durante um dia inteiro, cresce a busca por encontros que combinem conteúdo, integração, gastronomia, lazer e experiências.
A própria movimentação do mercado mostra essa aproximação. Em 2026, a Resorts Brasil promoveu encontros específicos com profissionais do segmento MICE, reforçando o interesse dos resorts nesse mercado.
“O evento corporativo mudou. A empresa não quer necessariamente tirar 100 pessoas do escritório para colocá-las durante oito horas dentro de outra sala fechada. Existe uma preocupação cada vez maior com engajamento, relacionamento e com aquilo que as pessoas vão levar daquela experiência”, avalia Barbosa.
Eventos ajudam a equilibrar a sazonalidade
Para os resorts, existe ainda uma questão operacional importante nessa aproximação com o mercado corporativo: o calendário das empresas e o calendário das famílias são complementares.
Enquanto o lazer tende a concentrar maior demanda nos fins de semana, férias escolares e feriados, convenções, treinamentos, reuniões de planejamento e encontros empresariais podem acontecer justamente de segunda a quinta-feira e fora da alta temporada.
É uma combinação capaz de melhorar a distribuição da ocupação e ampliar a utilização de estruturas que um resort mantém durante todo o ano, como apartamentos, restaurantes, espaços para eventos, áreas de convivência e equipamentos de lazer.
“Quando você consegue trabalhar públicos complementares, reduz a dependência dos grandes picos. A família continua sendo fundamental para um resort, mas uma convenção de terça a quinta-feira ocupa quartos, restaurantes e espaços de eventos justamente quando a demanda de lazer naturalmente é menor”, explica Barbosa.
A estratégia também permite que os empreendimentos trabalhem com diferentes perfis de público sem necessariamente mudar sua vocação principal.
O resort continua sendo um destino de lazer. A diferença é que sua estrutura passa a ser utilizada de maneiras distintas dependendo do dia da semana, do período do ano e da necessidade do cliente.
Bleisure aproxima ainda mais os dois mercados
A fronteira entre viagem de negócios e lazer também está ficando menos definida.
Pesquisa do Travel Leaders Hub divulgada em 2026 mostra que 48,3% dos brasileiros afirmam já ter combinado uma viagem corporativa com momentos de lazer nos 12 meses anteriores.
Esse comportamento é conhecido no mercado como bleisure, termo formado pela união das palavras em inglês business (negócios) e leisure (lazer). Na prática, acontece quando o profissional aproveita uma viagem de trabalho para permanecer mais tempo no destino e desfrutar de experiências de lazer, sozinho ou acompanhado da família.
Um executivo que participa de uma convenção entre quarta e sexta-feira, por exemplo, pode prolongar a estadia até domingo. Para a hotelaria, isso significa transformar uma viagem originalmente corporativa em uma experiência que também movimenta restaurantes, atrações, entretenimento e outros serviços turísticos.
Para os resorts, essa combinação cria uma vantagem adicional: a infraestrutura desenvolvida originalmente para o lazer passa a agregar valor também à viagem profissional.
Piscinas, gastronomia, áreas externas, atividades esportivas, bem-estar, natureza e programação de entretenimento deixam de ser apenas comodidades e podem se tornar parte da própria experiência de um evento.
“É uma mudança interessante porque lazer e corporativo deixam de ser mundos separados. O executivo continua querendo eficiência, conectividade e uma estrutura profissional para trabalhar, mas também valoriza onde está, o que pode fazer depois da reunião e a experiência que aquele encontro proporciona”, diz Barbosa.
Viagem corporativa também entra na disputa por talentos
A mudança de comportamento começa a alcançar também as políticas internas das empresas.
Levantamento apresentado durante a Business Travel Show Europe mostrou que experiências de bleisure já aparecem entre os benefícios oferecidos por algumas organizações. Ao mesmo tempo, caiu de 57%, em 2025, para 52%, em 2026, a parcela das companhias pesquisadas que não utiliza viagens corporativas como instrumento de atração e retenção de profissionais.
A discussão passa a envolver não apenas custo e logística, mas também cultura organizacional, integração e relacionamento entre equipes, especialmente em empresas que adotaram modelos híbridos ou possuem profissionais distribuídos geograficamente.
“Depois da consolidação do trabalho remoto e híbrido, muitas empresas perceberam que reunir pessoas presencialmente ficou ainda mais valioso. Talvez elas se encontrem menos vezes, mas, quando isso acontece, querem que aquele encontro tenha significado. É aí que hospitalidade e experiência passam a ter um papel muito maior”, afirma Barbosa.
Santíssimo leva modelo híbrido para expansão em São Paulo
A combinação entre lazer, entretenimento e eventos também faz parte da estratégia de expansão do Santíssimo Resort.
O grupo já opera em Tiradentes, em Minas Gerais, onde reúne hospedagem, lazer familiar, gastronomia e programação de entretenimento. A experiência acumulada na operação mineira vem sendo considerada no desenvolvimento da nova unidade em Santo Antônio de Posse, no interior paulista.
A primeira fase do empreendimento prevê 102 unidades habitacionais. Uma etapa posterior do projeto contempla ainda a implantação de um Centro de Convenções, com aproximadamente 2 mil metros quadrados destinados a eventos, ampliando a capacidade de atuação no segmento corporativo.
Segundo o diretor, a ideia é que o Centro de Convenções cresça junto com a oferta de apartamentos do Resort, chegando a uma área total construída de mais de 15.000 m², com infraestrutura completa e mais de 50 salas para realização de eventos de todo porte.
A localização também é estratégica para essa frente. Santo Antônio de Posse está inserida na região de Campinas, um dos principais polos econômicos, empresariais e industriais do interior paulista, além de estar conectada por rodovias a importantes mercados consumidores.
Segundo Barbosa, pensar a estrutura corporativa desde a concepção do empreendimento é diferente de simplesmente adaptar um resort para receber empresas posteriormente.
“Quando o corporativo faz parte do planejamento, conseguimos pensar no fluxo, alimentação, hospedagem, espaços de reunião, áreas de convivência e lazer como partes de uma mesma experiência. Não é simplesmente colocar uma sala de eventos dentro de um resort. É pensar como aquele empreendimento funciona para públicos diferentes ao longo da semana e do ano.”
Fora das capitais, experiência ganha peso
A procura por encontros corporativos fora dos ambientes tradicionais dos grandes centros é outro fator que pode favorecer resorts e destinos do interior.
Para viagens de incentivo, a busca por lugares inéditos já aparece entre as prioridades de sete em cada dez organizadores. No caso de convenções, reuniões estratégicas e encontros internos, deixar o ambiente cotidiano pode contribuir para aumentar a imersão e estimular a convivência entre os participantes.
Isso ajuda a explicar por que destinos acessíveis por rodovias e relativamente próximos aos grandes centros econômicos entram no radar das empresas.
Para Barbosa, o movimento tende a aproximar ainda mais a hotelaria de lazer e turismo de negócios.
“Os resorts não precisam escolher entre ser de lazer ou corporativos. Existe espaço para construir operações híbridas, desde que cada público seja atendido com qualidade. O lazer gera desejo, o corporativo traz recorrência e ajuda a distribuir a demanda. Os dois juntos podem construir um negócio menos dependente de datas específicas.”
De segunda a segunda
Com o mercado brasileiro de viagens corporativas novamente em expansão e as empresas buscando experiências que ultrapassem o formato tradicional das reuniões, a disputa da hotelaria pelo viajante de negócios tende a ficar mais sofisticada.
Não basta oferecer quartos, projetor e uma sala de convenções. O diferencial passa pela capacidade de integrar infraestrutura profissional, hospitalidade, gastronomia, lazer e experiências em uma única jornada.
Para os resorts, isso significa também repensar uma lógica histórica do negócio: deixar de olhar apenas para férias, fins de semana e feriados e buscar uma operação capaz de gerar demanda durante os sete dias da semana.
“O futuro está justamente nessa complementaridade. Uma família pode chegar na sexta-feira para passar o fim de semana enquanto, dias antes, aquele mesmo empreendimento recebeu uma convenção empresarial. São públicos diferentes, necessidades diferentes, mas uma mesma estrutura de hospitalidade sendo utilizada de forma mais inteligente”, conclui Barbosa.
Mercado corporativo em números
R$ 147,8 bilhões movimentados pelas viagens corporativas no Brasil em 2025.
R$ 12 bilhões movimentados somente em janeiro de 2026.
5,2% de crescimento em janeiro ante o mesmo período de 2025.
Quase R$ 48 bilhões movimentados no primeiro trimestre de 2026.
6,7% de crescimento no primeiro trimestre.
70% dos organizadores de viagens de incentivo procuram destinos inéditos.
58% dos executivos esperam maior importância das viagens de incentivo para a cultura organizacional.
48,3% dos brasileiros pesquisados já combinaram negócios e lazer em uma mesma viagem.
(Crédito: iStock)
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