Saude e Beleza
Outubro Rosa a 100 km/h: os desafios de acesso à saúde e os direitos das mulheres caminhoneiras nas estradas

Com rotinas exaustivas e falta de infraestrutura nas rodovias, motoristas profissionais enfrentam barreiras para realizar exames de rotina como a mamografia; advogada e caminhoneira da categoria analisam o cenário
A rotina das mulheres no transporte rodoviário de cargas é marcada por longas jornadas, falta de infraestrutura nos pontos de parada — como banheiros femininos adequados e segurança — e agendas imprevisíveis. Durante o mês do Outubro Rosa, um alerta acende para toda a sociedade: como garantir exames de rotina, como a mamografia, quando se passa semanas rodando o Brasil?
Hoje, o Brasil conta com mais de 153 mil mulheres atuando como caminhoneiras e carreteiras. No entanto, para quem vive ao volante, a logística para agendar e realizar consultas preventivas no tempo certo esbarra na própria dinâmica e nas limitações da profissão. A incompatibilidade entre os prazos de entrega e o funcionamento dos serviços de saúde torna o cuidado com a vida um desafio constante nas estradas brasileiras.
A caminhoneira Elenice de Souza relata que a falta de flexibilidade e de pontos focados na categoria impede o diagnóstico precoce. “Hoje no Brasil não temos um único ponto onde a mulher caminhoneira possa chegar e fazer o seu exame de prevenção ao câncer de mama. Se ela consegue agendar um posto de saúde, muitas vezes, quando chega o dia, ela já está em outra cidade ou estado e acaba perdendo a consulta. Muitas passam mais de um ano sem conseguir realizar os exames de rotina”, desabafa.

Elenice pontua que poucas possuem o suporte de planos privados e que falta um olhar atento do poder público e das concessionárias de rodovias. “Antigamente tínhamos ações itinerantes, como carretas e ônibus de prevenção nos pontos de parada, mas hoje não vemos mais. Somos uma classe que cresce a cada dia e transporta a riqueza do país, mas precisamos que as autoridades olhem por nós e garantam um atendimento acessível para quem está na estrada”, cobra a motorista.
Além dos gargalos operacionais e da falta de pontos de apoio adaptados nas rodovias, muitas profissionais desconhecem a legislação que protege a saúde da mulher trabalhadora. De acordo com a Dra. Miriam Ranalli, advogada atuante em Direitos dos Transportes e Defesa dos Caminhoneiros e Caminhoneiras, a informação é uma aliada fundamental na prevenção.
“Quem passa a vida cuidando da estrada também precisa cuidar de si. A legislação trabalhista prevê o direito à ausência justificada para a realização de exames preventivos de câncer, sem prejuízo no salário. Além disso, em casos de diagnóstico, a motorista — seja ela CLT ou autônoma — tem garantias previdenciárias e assistenciais para focar no seu tratamento com dignidade”, explica a Dra. Miriam Ranalli.
(Crédito: Mércia Araújo)
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