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Uma semana com menos redes sociais reduz sintomas de depressão em 25%, aponta estudo

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Pesquisa com jovens de 18 a 24 anos também encontrou queda de 16% nos sintomas de ansiedade e de 14% nos de insônia; para Brunna Boaventura, resultado reforça que problema não está apenas no tempo de tela, mas na relação estabelecida com o ambiente digital

Reduzir o uso das redes sociais por apenas uma semana foi associado a uma queda de 24,8% nos sintomas de depressão, de 16,1% nos de ansiedade e de 14,5% nos de insônia entre jovens de 18 a 24 anos. Os resultados são de um estudo publicado no JAMA Network Open que acompanhou 373 jovens adultos nos Estados Unidos, dos quais 295 aderiram voluntariamente a um período de redução do uso de Instagram, TikTok, Facebook, Snapchat e X.

Mais do que defender um “detox digital”, porém, a pesquisa traz uma conclusão que pode mudar a discussão sobre redes sociais e saúde mental: a quantidade de tempo diante da tela, isoladamente, não foi o fator mais associado aos piores indicadores psicológicos. O uso considerado problemático, marcado, por exemplo, por dependência emocional, comportamento compulsivo e comparação social negativa, apresentou relações mais consistentes com sintomas de depressão, ansiedade, solidão e insônia.

Para Brunna Boaventura, nutricionista, pesquisadora e educadora, o resultado ajuda a deslocar uma discussão que muitas vezes fica restrita à contagem de horas no celular. “Não é suficiente transformar o tempo de tela em um número que separa automaticamente um comportamento saudável de outro prejudicial. Duas pessoas podem passar o mesmo período nas redes e ter experiências completamente diferentes. O ponto importante é entender o que acontece durante esse tempo: se existe comparação constante, necessidade de validação, dificuldade de interromper o uso ou se aquele ambiente começa a ocupar o espaço do sono, da atividade física e das relações presenciais”, analisa Brunna.

Nas duas primeiras semanas da pesquisa, os participantes passavam, em média, 1,9 hora por dia nas cinco redes analisadas. Durante a semana de redução, esse tempo caiu para cerca de meia hora diária. Quase 90% dos participantes que aderiram à intervenção conseguiram diminuir o uso.

Apesar disso, as medidas objetivas, como tempo total nas redes, número de notificações e quantidade de vezes em que o celular era consultado, apresentaram associações pequenas ou inexistentes com os indicadores de saúde mental. Já as medidas relacionadas ao uso problemático tiveram associação mais consistente com maior intensidade dos sintomas.

“Isso é especialmente relevante porque existe uma tendência de tratar o celular como o problema em si. Mas retirar o aparelho sem compreender o comportamento pode atacar apenas a superfície. A pergunta mais útil talvez não seja somente ‘quantas horas você passa nas redes?’, mas ‘como você se sente enquanto está nelas e depois que sai?’”, afirma Brunna.

O resultado ganha relevância no Brasil pela presença das redes sociais na rotina da população. Dados da TIC Domicílios 2025 mostram que 81% dos usuários brasileiros de Internet utilizaram redes sociais naquele ano. Entre crianças e adolescentes, a exposição também começa cedo: na faixa de 9 a 17 anos, 68% acessavam WhatsApp e 66% YouTube diariamente ou várias vezes ao dia; Instagram chegava a 59% e TikTok, a 57%.

Brunna chama atenção para uma particularidade dessa geração: as redes deixaram de ser apenas uma atividade de lazer e passaram a atravessar diferentes dimensões da vida, como estudo, trabalho, alimentação, aparência, exercício físico e relações pessoais. “Para muitos jovens, não existe uma separação clara entre vida digital e vida real. É nas redes que eles conversam, estudam, acompanham tendências, constroem referências de corpo, alimentação, carreira e estilo de vida. Por isso, a discussão não deveria ser simplesmente sobre proibir ou abandonar as plataformas, mas sobre desenvolver uma relação em que elas não determinem permanentemente como a pessoa avalia o próprio corpo, a própria rotina ou o próprio sucesso”, diz.

Um dos pontos destacados pelos pesquisadores foi justamente a comparação social negativa. O estudo encontrou associações entre esse comportamento e sintomas de ansiedade e outros indicadores de saúde mental, enquanto o tempo objetivo de uso apresentou relações bem mais fracas.

Para Brunna, esse mecanismo merece atenção em um ambiente no qual alimentação, corpo e bem-estar também se transformaram em conteúdo. “Quando a pessoa passa o dia exposta a rotinas editadas, corpos selecionados, dietas perfeitas, treinos intensos e discursos de alta performance, existe o risco de começar a enxergar comportamentos normais como insuficientes. Descansar parece preguiça, comer vira motivo de culpa e cuidar da saúde pode se transformar em mais uma obrigação de desempenho. A comparação deixa de inspirar e começa a produzir inadequação”, avalia.

A pesquisa também encontrou um resultado que contraria a ideia de que simplesmente abandonar as redes resolveria todos os problemas. A redução do uso não produziu mudança significativa na solidão. Os próprios autores levantam a hipótese de que isso esteja relacionado à função social das plataformas, que também podem oferecer conexão e senso de comunidade.

Os pesquisadores fazem ressalvas importantes. O estudo foi realizado nos Estados Unidos, com uma amostra predominantemente feminina, universitária e usuária de iPhone. Além disso, os participantes decidiram voluntariamente se fariam a redução das redes, não houve grupo de controle randomizado e não existiu acompanhamento posterior capaz de mostrar se os benefícios permaneceram no longo prazo. Por isso, os resultados mostram uma associação e não permitem afirmar que a redução das redes tenha sido, sozinha, a causa das melhoras observadas.

Brunna também alerta para o risco de transformar o “detox digital” em mais uma fórmula rápida de bem-estar. “Uma semana longe ou com menos redes pode ser uma experiência interessante para perceber hábitos que se tornaram automáticos, mas não deve ser vendida como tratamento para ansiedade, depressão ou insônia. Quando existem sintomas persistentes ou prejuízo na rotina, é necessário buscar avaliação profissional. O aprendizado mais importante desse estudo talvez seja outro: não precisamos esperar o uso digital se tornar extremo para começar a observar a relação que estamos construindo com ele”, conclui.

(Crédito: magnific)

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