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Variabilidade de canabinoides pode ampliar perspectivas terapêuticas no autismo, aponta à medicina

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Dr. Lucas Vergara Cury destaca o papel do sistema endocanabinoide, do eixo intestino-cérebro e de diferentes fitocanabinoides na investigação de sintomas associados ao transtorno do espectro autista

O debate sobre o uso medicinal da cannabis tem avançado para além da análise isolada de substâncias como CBD e THC. No campo do transtorno do espectro autista (TEA), pesquisadores e profissionais da saúde vêm investigando de que maneira a combinação de diferentes canabinoides pode atuar sobre mecanismos relacionados à ansiedade, impulsividade, sono, atenção e alterações gastrointestinais — manifestações que podem acompanhar o transtorno em diferentes graus.

Para o médico Dr. Lucas Vergara Cury, compreender essa diversidade é fundamental para avançar na discussão sobre os chamados fitocomplexos, formulações que reúnem diferentes compostos presentes na planta. A hipótese parte do funcionamento do sistema endocanabinoide, um sistema fisiológico envolvido na regulação de processos como comunicação entre neurônios, memória, aprendizagem, comportamento, resposta emocional e equilíbrio da atividade cerebral.

O sistema endocanabinoide produz moléculas como a anandamida e o 2-AG, que participam de um mecanismo conhecido como sinalização retrógrada. De maneira simplificada, esse processo contribui para ajustar a comunicação entre os neurônios de acordo com a necessidade do organismo.

Dr. Lucas Vergara Cury
(Dr. Lucas Vergara Cury)

Do cérebro ao intestino

No TEA, alterações relacionadas à comunicação neural, à regulação emocional e à resposta a estímulos sociais são objeto de ampla investigação científica. Estruturas como amígdala, hipocampo, córtex pré-frontal e outras regiões envolvidas no processamento emocional e cognitivo aparecem frequentemente nos estudos de neuroimagem e neurobiologia do transtorno.

É nesse contexto que o sistema endocanabinoide ganha atenção. O receptor CB1, um dos principais receptores canabinoides presentes no sistema nervoso central, participa da modulação da atividade sináptica e de processos relacionados à memória, aprendizagem, cognição e comportamento.

Segundo a abordagem apresentada por Cury, a discussão não deve se limitar a um único canabinoide. CBD, THC, CBG e CBN possuem características farmacológicas diferentes, o que abre espaço para investigar combinações e concentrações distintas de compostos de acordo com os sintomas e as necessidades de cada paciente.

Entre eles, o canabigerol (CBG) vem despertando interesse científico por suas possíveis ações sobre mecanismos relacionados à atenção, inflamação e funcionamento gastrointestinal. Um estudo publicado em 2021 avaliou uma formulação contendo CBG e CBD em pessoas com diferentes condições clínicas e encontrou relatos de melhora em aspectos como energia, atenção, fadiga, ansiedade e dor. O trabalho, entretanto, não foi desenvolvido especificamente para o TEA, o que reforça a necessidade de cautela na extrapolação dos resultados para pessoas autistas.

A relação entre cérebro e intestino é outro ponto de interesse. Alterações gastrointestinais são frequentemente observadas em pessoas com TEA, incluindo constipação, diarreia e dor abdominal. A interação entre microbiota intestinal, sistema imunológico e sistema nervoso central — conhecida como eixo microbiota-intestino-cérebro — vem sendo estudada como parte da complexa fisiologia associada ao transtorno.

Nesse cenário, o CBG também aparece nas pesquisas por sua interação com mecanismos relacionados ao sistema endocanabinoide e à inflamação. A hipótese é que determinados fitocanabinoides possam contribuir para a modulação desses processos, embora ainda sejam necessários estudos clínicos específicos e de maior escala para estabelecer sua eficácia e segurança no tratamento de manifestações do TEA.

Sono também entra na discussão

Outro desafio frequente para pessoas autistas são os distúrbios do sono. Dificuldades para iniciar ou manter o sono, despertares durante a noite e alterações do ritmo circadiano podem repercutir no comportamento, na aprendizagem e no funcionamento durante o dia.

Nesse campo, o canabinol (CBN) também passou a despertar interesse. Pesquisa publicada em 2024 investigou seus efeitos sobre o sono em modelos animais e observou alterações na duração e na arquitetura do sono. Por se tratar de um estudo realizado em ratos, os resultados ainda não permitem afirmar que os mesmos efeitos ocorram em seres humanos, mas ajudam a orientar novas linhas de investigação.

Para Lucas Cury, a relevância da variabilidade de canabinoides está justamente na possibilidade de compreender a planta como um conjunto de compostos com diferentes mecanismos de ação, e não apenas a partir de uma única substância.

“A compreensão do sistema endocanabinoide permite ampliar a discussão sobre o uso medicinal da cannabis para além de um único canabinoide. A variabilidade dos compostos pode ser importante para investigar diferentes manifestações clínicas, sempre considerando as particularidades de cada paciente e o que a literatura científica já consegue sustentar.”

A discussão, portanto, está menos relacionada à ideia de uma substância capaz de “tratar o autismo” de forma isolada e mais voltada à investigação de como diferentes canabinoides podem atuar sobre sintomas e comorbidades que acompanham o TEA.

A perspectiva reforça a necessidade de pesquisas clínicas específicas, acompanhamento médico individualizado e avaliação criteriosa de riscos e benefícios. Para Cury, o avanço da ciência nessa área dependerá justamente da capacidade de compreender a interação entre sistema nervoso, sistema endocanabinoide, sono, comportamento e eixo intestino-cérebro.

A variabilidade dos canabinoides, nesse sentido, deixa de ser apenas uma característica da planta e passa a ocupar espaço no debate científico sobre estratégias terapêuticas personalizadas.

(Crédito: Divulgação)

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